
Em apenas 3 anos ele se firmou nas telas, depois de conquistar os palcos com o monólogo Bispo
João Miguel talvez seja o único ator de sua geração que teve a chance - ou a honra - de contracenar com Glauber Rocha. Hein? Contracenar? Ainda garoto, com 10 anos, João Miguel participava em Salvador, onde nasceu, de um programa de entrevistas na TV. Ele já havia feito teatro e bancava o repórter no programa de Nonato Freire. Um dia, entrevistou Glauber Rocha, sabendo que o cara era importante, mas só hoje ele avalia corretamente de quem se tratava: o arauto, o profeta do Cinema Novo, um dos grandes nomes - e, para muita gente, o maior - de toda a história do cinema brasileiro. João Miguel, muito sério, disse a Glauber que ia lhe perguntar uma pergunta. E Glauber, também muito sério, lhe disse que ia responder uma resposta.
Ele ri desta travessura infantil, mas o caso é que João Miguel nasceu talhado para representar. Não foi à toa que, nos últimos três anos, desde 2005, ele cavou um espaço destacado entre os melhores atores de sua geração - nasceu em 1970 -, com filmes que fazem parte da história do cinema brasileiro, e não apenas o da Retomadaque se inicia com Carlota Joaquina, de Carla Camurati, em 1995. Cidade Baixa, de Sergio Machado; Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; e agora Estômago, de Marcos Jorge, contam-se entre os melhores. E houve o teatro, onde ele despontou nacionalmente com um espetáculo sobre Bispo do Rosário, escrito em parceria com Edgar Navarro, diretor do belo Eu Me Lembro, no qual ele atuou, é bom lembrar.
Aos 18, João Miguel estava no Rio estudando teatro na Casa das Artes de Laranjeiras . Logo veio um trabalho com Luiz Carlos Vasconcellos, num projeto sobre palhaços. Eles pesquisaram muito o assunto, a origem do palhaço, o seu gestual, e se apresentavam nas ruas, em escolas e hospitais. Até hoje, João Miguel considera que essa formação como palhaço foi fundamental para o desenvolvimento de sua carreira. ''O palhaço me deu mais interação social. Com ela também veio um despojamento, uma desconstrução. Toda tragédia tem um fundo de comédia. Todo humor pode ser triste. O importante é que essa vontade de fazer, de compartilhar, me transformou num ator investigativo. Gosto de fazer pesquisa, e os diretores têm de respeitar isso.'' Nestes três decisivos anos, João Miguel trabalhou preferencialmente com o chamado cinema de autor. É bobagem falar em cinema alternativo, porque, no fundo, todo cinema brasileiro é (no próprio mercado).
Só que João Miguel não quis ficar preso a um rótulo, o de ator de autores. Ele também quis fazer o cinema brasileiro mais ''industrializado'' e acaba de rodar Bonitinha, Mas Ordinária, adaptado da peça de Nelson Rodrigues, com direção de Moacyr Góes, na Diller Associados. Também fez alguma televisão - Carandiru, Outras Histórias e Te Quiero América - na Globo. Como diz o próprio João Miguel, ''se a gente quer acabar com o preconceito, tem de praticar''. Ele não é do tipo que não filma com as produtoras mais ligadas ao mercado - mas o que é o mercado do cinema brasileiro? -, não foge da Globo porque num certo sentido é a Hollywood do audiovisual brasileiro, com seus astros e estrelas, seu estilo naturalista de interpretação.
Houve um período da sua vida que João Miguel escrevia dois programas de televisão e até hoje ele acha que foi isso que atiçou sua curiosidade pelo audiovisual. ''Eu visualizava os programas a partir do que tinha escrito e acho que ali já começou o meu desejo secreto de fazer cinema.'' Só que ele demorou para concretizá-lo. Antes disso, houve o fenômeno ''Bispo'', que foi um divisor de águas em sua carreira. A peça Bispo conta a história do visionário, profeta messiânico e artista Arthur Bispo do Rosário, que viveu mais de 50 anos interno numa casa de loucos. Encenada como um monólogo, a peça percorreu o País em 2001, ganhando muitos prêmios - e João Miguel fala agora em remontá-la. Como diz, ele precisa voltar ao teatro, que o alimenta.
O Bispo somou todas as suas influências. Tinha muito da figura do palhaço, pelo menos na forma como ele pesquisou para o espetáculo em institutos psiquiátricos, interagindo com os internos. O ano de 2001 foi também o de Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, que também investigava o sistema manicomial brasileiro. Peça e filme definem uma época e tratam do Brasil fazendo a crítica de suas instituições repressoras - a família, a casa de loucos. Com o prestígio consolidado pelo Bispo, João Miguel finalmente saiu do namoro com o cinema, conseguindo papéis cada vez mais importantes. O de Estômago, leva jeito de fazer dele o ator brasileiro de 2008, da mesma forma que 2007 foi marcado pelo papel de Selton Mello em O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia.
Embora João Miguel seja o protagonista absoluto do filme de Marcos Jorge, o processo de sua escolha foi delicado. Nonato, seu personagem, quase foi outro até o momento em que o diretor Marcos Jorge se encontrou pessoalmente com João e percebeu que ele poderia dar ao personagem a personalidade forte que desejava. Não foi uma convivência muito tranqüila. João Miguel é um ator investigativo, tinha idéias próprias sobre o personagem. Não queria, por exemplo, que ele fosse um estereótipo do nordestino. A tragédia de Nonato é universal. Ele saiu de um lugar pequeno para a cidade grande, de uma prisão (no sentido de levar uma vida sem horizontes) para outra. As divergências no set não foram pessoais. Fizeram parte do processo criativo. O filme, e João Miguel, são ambos impactantes e ricos.
Luiz Carlos Merten
Estadão - Caderno 2 - Sexta-Feira, 11 de Abril de 2008
